A hora do adeus: por que é importante ir ao velório?

Há alguns dias a televisão brasileira perdeu um grande ator e, ao que parece, o mundo perdeu um grande homem, bom pai, bom colega e amigo. Trata-se do famoso ator, Domingos Montagner, que tragicamente perdeu a vida ao afogar-se no rio São Francisco. Das muitas coisas que uma morte assim nos faz pensar, uma em especial quero dividir com vocês.

Como estudiosa do comportamento humano e dos processos de perda e luto, chamou-me muito a atenção a forma como a esposa e filhos enfrentaram a situação. Segundo informações, em uma conversa, a esposa e filhos decidiram que as crianças não iriam participar do velório e enterro do pai. Afirmaram querer guardar na memória a imagem do pai vivo e feliz. Com muito respeito à decisão destes, que enfrentam uma das maiores dores que o ser humano pode vivenciar, e sem pretensões de julgar quem quer que seja, quero apenas aproveitar essa situação e trazer à tona algumas reflexões acerca da morte e de como lidamos com ela nos dias atuais.14292365_645979662236834_4381429654756747180_n

A reação da família e a decisão de manter as crianças afastadas dessa situação de extremo sofrimento parece reproduzir bem a forma como encaramos a morte atualmente. Quanto mais ela puder ser ignorada, evitada e escondida, melhor! Olhar para a face da morte assusta e nos faz lembrar da nossa própria finitude. Vivenciar a morte de uma pessoa querida implica na total perda do controle, implica em perder a noção do real, do tempo, de quem somos. Os sentimentos e emoções são avassaladores, o sofrimento e a angústia parecem não ter fim. Quem consegue enfrentar tudo isso?  A vontade que se tem é de correr para bem longe, fugir e deixar tudo para trás.

Tentamos afastar a todo o custo a morte do nosso dia a dia, e, de repente, vejam que irônico, ela nos chega pelos noticiários, jornais e redes sociais: “Morte de Domingos Montagner”; “Morre ator global”; “Tragédia no rio São Francisco”… Onde quer que se olhasse, lá estava ela, escancarando nossa porta e adentrando nossos lares. Indigesta, nos fazendo lembrar que ela chega, mesmo para os jovens e saudáveis, ricos e famosos.

Mas, voltemos ao tema em questão… Os filhos de Domingos não foram ao seu velório e enterro. Certamente, a mãe quis protegê-los, livrá-los de ter que passar por momentos tão dolorosos. E que mãe não gostaria de fazer o mesmo? Mas, até que ponto essa atitude é saudável? Quais as implicações disso para a vida futura dessas crianças?

13339438_602802279887906_295616658763876614_nSabemos que os rituais de despedida tem papel importante na elaboração do luto, uma vez
que auxiliam o enlutado a assimilar a perda, entendendo-a como real e irreversível. Permitem que ele possa despedir-se do morto de maneira solene e consolidada, contando sempre com o suporte de amigos e familiares presentes na despedida. É por meio desse ritual de passagem que se inicia o fechamento de um ciclo e a reorganização psíquica do sobrevivente. E isso vale inclusive para as crianças. Apesar de terem uma compreensão mais limitada sobre a morte, as crianças também vivenciam o luto, sofrem e precisam elaborar sua dor. Por isso, assim como os adultos, devem participar dos rituais de despedida. Isso as fortalecerá até mesmo para enfrentarem futuras perdas e separações.

 Muitas etapas de luto virão depois, mas certamente uma das mais importantes é a despedida. Só podemos chorar a perda se entendermos que perdemos. Não acompanhar os rituais de despedida pode tornar essa assimilação da morte mais difícil. Se ainda tenho na memória a imagem da pessoa viva, se não a vi num caixão, se não vi o caixão descer ao túmulo, se evito pensar nela nessas circunstâncias, como poderei entender que ela morreu? Como em tantas outras situações da vida, na morte também temos necessidade de ver para crer.

Quando não nos permitimos dizer adeus, estamos negando a morte. Em um primeiro momento esse negação funciona como um mecanismo de defesa, uma forma inconsciente de nos proteger contra a realidade da perda. É como se pensássemos: “se eu não disser adeus, se eu não assumir que ele morreu então ele continuará vivo”. Por algum tempo isso pode até funcionar, mas tenham certeza: mais cedo ou mais tarde, em nome de nossa
saúde mental, teremos que viver nosso luto, a começar pelo adeus.

Quando a vivência da perda não é adiada, eu diria mais, quando essa experiência de perda não é silenciada com calmantes, como muito acontece, podemos elaborar o luto de maneira mais saudável. E isso inclui chorar muito, se desesperar, recordar, ir ao cemitério, sentir raiva, culpa, medo… Sim, perder alguém não é coisa para se superar rápido. É 13082546_584623688372432_1252731429230465503_npreciso de tempo e muita coragem. Coragem para mergulhar fundo na dor e vivê-la intensamente, pois somente assim é que poderemos nos curar dela. Proteger alguém de viver sua perda pode acarretar em sérios problemas futuros, tais como dificuldades interpessoais, crises de pânico, transtornos de ansiedade ou depressivos.

Não estou aqui prevendo que os filhos de Domingos Montagner terão essas ou aquelas dificuldades futuras em virtude de não terem comparecido ao velório e enterro do pai. Como mera expectadora, pouco sei sobre os bastidores dessa história, menos ainda sobre o funcionamento psíquico de seus personagens e suas estratégias de enfrentamento. Tenho, porém, convicção de que a decisão tomada foi aquela que, naquele momento, eles acreditavam ter condições de suportar. Suas consequências (ou a falta delas) é algo que foge a qualquer teoria. Por hora, deixo apenas essa reflexão e a minha solidariedade a família e a todos que tão repentinamente perdem pessoas queridas e com elas, um pouco de si.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Joise Raquel Correa Lima disse:

    Antes de ler esse documentário não tinha noção de quanto é importante chorar e velar o corpo de alguém, agora esclareceu tudo e me ajudou a aceitar a perda .Vou poder ajudar outras pessoas com essas informações. Obrigado!

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    1. Muito obrigada, Joise! Fico realmente feliz em saber que foi útil para você. Fique à vontade para compartilhar as informações. E obrigada pelo teu retorno. Abraço.

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