Depressão: quando a sociedade nos adoece

O Dia Mundial da Saúde celebrado no dia 07 deste mês de abril abordou o tema Depressão. Frente ao adoecimento psíquico de milhões de pessoas algumas reflexões fazem-se necessárias. Então, vamos começar…

É muito normal, humano e até mesmo necessário que nos sintamos tristes de vez em quando. Não há nada de errado em querer ficar sozinho em alguns momentos, não ter vontade de sair ou estar desanimado. Até mesmo chorar por “besteira” vez ou outra pode ser revigorante. Não precisamos estar sempre alegres, confiantes e cheios de disposição. Não somos super-heróis, não somos máquinas. Ser feliz não é uma obrigação permanente, mesmo que às vezes pareça que sim. Assim como a alegria, a tristeza também faz parte da vida e necessita ser sentida e expressa. Todos nós temos dias ruins, mas nem por isso somos todos depressivos. Muitas vezes o que chamamos de depressão nada mais é do que uma infelicidade passageira. Um mal estar físico, mas principalmente emocional, que após alguns dias, um bom descanso e – no meu caso – alguns chocolates, se esvai.

Começo este texto sobre depressão esclarecendo, justamente, o que ela não é. Acho importante que isso fique muito claro, antes de seguirmos falando da depressão como uma patologia. Da depressão como um transtorno psicológico, extremamente incapacitante, e que atualmente adoece cerca de 11,5 milhões de brasileiros. Sim, 11,5 milhões de seres humanos que tem sua vida afetada/limitada diariamente por esta doença. E outro dado alarmcriancadepressao-604x270ante: não apenas adultos, mas também adolescentes e crianças, cada vez mais cedo na vida, vem sendo diagnosticados com esse mal.

Sabemos dos diversos fatores que podem influenciar no surgimento do Transtorno Depressivo. Componentes genéticos, ambientais, sociais e da personalidade do indivíduo podem levar a disfunções bioquímicas no nosso cérebro e, consequentemente, ao aparecimento da doença. Mas não é sobre esses processos complexos que desejo falar aqui. Quero abordar a depressão sob outra ótica – e certamente não menos complexa – inspirada pela escritora e psicanalista Maria Rita Kehl.

Em seu livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões” Maria Rita nos leva a refletir sobre a depressão como um sintoma social. A depressão como resultado da forma como estamos vivendo e dos valores da nossa época. É sabido que a depressão vem se tornando uma epidemia global desde os anos 70 e já no início do século XXI é a doença que mais causa incapacidades no mundo. O crescimento da doença parece ter importante relação com o que o filósofo Han chama de “Sociedade do Desempenho”. Um novo modelo de sociedade para a qual teríamos evoluído, ou seria “involuído”? Uma sociedade onde impera a euforia, a velocidade e o exibicionismo. Uma era em que o erro, a dúvida ou a doença passam a ser vistos como sinal de incompetência e fracasso.

Cada dia precisamos dar conta de mais trabalho, de mais estímulos e informações. Sobre isso a escritora Eliane Brum acrescenta: “O chefe nos encontra a qualquer hora em qualquer lugar. O expediente não acaba nunca. Não há mais espaço de trabalho e espaço de lazer, tudo se confunde”. Precisamos mostrar desempenho. Precisamos mostrar untitled-2resultado! Mas, se o resultado de tudo isso for o cansaço, o estresse ou o adoecimento, então não podemos mostrar. Seria confessar-se fracassado. Na sociedade do desempenho não há espaço para fracassados.

Completando o cenário temos a internet que, a uma velocidade antes inimaginável, nos permite acesso a informações e pessoas do mundo todo. Assim, o que era distante ficou próximo e o que era próximo ficou distante. A internet parece ter engolido o mundo ao mesmo tempo em que o nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Estamos conectados ao planeta e cada vez mais desconectados de nós mesmos e dos outros. Relações profundas, de intimidade e presença parecem estar em extinção. Até mesmo o verdadeiro diálogo anda escasso nessa sociedade do desempenho. Como dizia uma frase que li há alguns dias, nos tornamos uma geração com agendas cheias e relações vazias. O outro tornou-se alguém que pode ser bloqueado ou mesmo deletado.

Como não adoecer? Como não se deprimir? Ah, eu já ia me esquecendo… Temos ainda, vindo das mais diversas fontes, estímulos constantes à felicidade. Somos levados a acreditar que felicidade integral deve ser nosso estado permanente. E de preferência aliado à beleza e à juventude – porque é isso que nos diz o Facebook.  Então, quando sentimos tristeza, angústia ou medo olhamos para esses sentimentos como se não pertencessem à nossa condição humana. Além do mais, ser apenas humano parece não depressãoestar mais sendo o suficiente para dar conta das demandas do dia-a-dia. Aos dias parecem faltar horas e às horas parece faltar sentido. E neste contexto, adoecemos. Como sintoma: a depressão. Um grito de socorro desse corpo já insuficientemente humano para a sociedade do desempenho e da velocidade.

Condicionados à pressa e ao resultado, quando adoecemos queremos um nome e um comprimido para a nossa doença. De efeito rápido, por favor. Esquecemo-nos que tratar uma depressão não é o mesmo que tratar uma micose ou uma pneumonia. Não existe um remédio milagroso que resolva nossos conflitos familiares, nossos problemas financeiros, que dissolva nossa culpa ou nossas perdas. Certamente quando o sofrimento é muito intenso e a depressão muito grave a medicação faz-se necessária, isso é incontestável. Porém, aliado a ela deve sempre estar a psicoterapia. Sim, em casos de depressão (assim como em todos os outros transtornos psicológicos) não basta apenas medicar. É preciso expressar a dor e elaborar o sofrimento. É preciso que a tristeza, o desespero, as crises de ansiedade e pânico se tornem palavras. Não podemos acreditar que a medicação resolve tudo, cura tudo. Isso seria calar a dor de quem sofre. Seria curar o sintoma sem ter chegado à causa. Seria como tomar um remédio para acalmar a dor de dente já sabendo que ele voltará a doer e provavelmente com ainda mais intensidade.

Tristeza-e-depressão

Tudo bem, pode até ser mais fácil engolir alguns comprimidos ao invés de pensar sobre algo que incomoda. Mas não podemos nos anestesiar da nossa condição humana. Nosso sofrimento só poderá ser amenizado/curado se olharmos com cuidado e dedicação para aquilo que nos faz sofrer. Se olharmos com carinho para nós mesmos, prestando atenção ao que o sofrimento e a depressão querem nos dizer. Entretanto, às vezes o sofrimento é tão grande que não conseguimos fazer isso sozinhos. Nestas horas a ajuda de um psicólogo pode ser fundamental. A depressão pode ser superada, a vida pode voltar a ter cor e alegria. E o melhor: só depende de nós. Da nossa disposição para buscar ajuda e mudar a forma como olhamos para a vida e para nós mesmos.

Inspiração:https://www.ecodebate.com.br/2009/12/09/o-depressivo-na-contramao-artigo-de-eliane-brum/

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html

 

 

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