Por onde começar?

Como é que a gente se organiza nessa “bagunça”?

Há alguns dias venho pensando em escrever sobre essa situação de pandemia do novo coronavírus e tudo o que está diferente. Sinto que tenho muito a dizer, mas confesso que está difícil colocar ordem nas ideias, encontrar um ponto de partida diante de tantas frentes que esse momento apresenta. Ontem decidi que vou escrever sobre não saber o que escrever. Tenho certeza que você vai me entender, afinal estamos todos na mesma tempestade. Queria ter mais certezas, sempre fui do tipo perfeccionista e organizada, um tanto metódica. Queria estar lendo mais, escrevendo mais, estudando mais. Uma parte minha cobra produtividade enquanto a outra contrapõe: “ tudo bem, aguente firme e apenas faça o seu melhor”. As notícias chegam de todos os lados: números, mortos, curva de contágio, isolamento social, flexibilização do isolamento social; impactos financeiros, crise econômica, crise política, repercussão na saúde mental, colapso no sistema de saúde. Ambulâncias, caixões, túmulos e lágrimas na tv. Esperança! Gestos de solidariedade, campanhas sociais, exemplos de dedicação e cuidado. Amor, união, e mais esperança… Certeza de que vai passar.

mar horizontePois é, difícil mesmo escolher por onde começar, sobre o que escrever, como sair ou enfrentar esse caos. Nosso mundo estável e seguro já não existe mais e o amanhã é apenas um grande ponto de interrogação acenando do lado de fora. O momento é único na vida de todos nós. Quem poderia imaginar viver dias assim, não é mesmo? E diante de tantas mudanças, medos e incertezas, nosso cérebro naturalmente começa a buscar dados para explicar e organizar a situação. Tentamos encontrar um sentido para tudo isso. Dar sentido é dar contorno à experiência e, assim, deixá-la menos assustadora. Seria este momento um chamado para que repensemos nosso estilo de vida? Um puxão de orelha de Deus? O planeta Terra buscando se curar?  Oportunidade de nos voltarmos para dentro, rever valores? Sentido, cada um precisará encontrar o seu. Mas, não se preocupe, isso é algo que acontece espontaneamente, não é mais um item para incluir naquela listinha de produtividade na quarentena. Aliás, com tanta coisa acontecendo e mudando – e mudado – o que menos precisamos agora é de uma lista de coisas para fazer. Nossa energia e esforços estão todos voltados para sobreviver. Estamos todos ligados em modo de sobrevivência. Provavelmente não sobrará mesmo muito espaço para arrumar gavetas, ler livros ou fazer cursos. E está tudo bem.

Novas áreas da psicologia nos ensinam que mais importante do que lutar contra a situação ou tentar mudar nossos comportamentos e emoções é reconhecer e aceitar esse funcionamento. Suspeito que é daí que vem o famoso “ tudo bem não estar tudo bem”. Se você estiver com medo, aceite seu medo. Se estiver ansioso, reconheça e acolha sua ansiedade. Ela é apenas uma parte de você, ela não é você. Se sentir vontade de chorar, chore, assuma o desconforto. Se você se sentir perdido e tudo parecer uma grande bagunça, abrace sua confusão. Não se condene e nem se cobre por nada do que  estiver sentindo. Entenda que quando brigamos com nossas emoções elas só aumentam. Tomar consciência e nomear o que estamos sentindo é o primeiro passo para “sair do escuro” e retomar certo senso de controle. Acredite, é bem mais proveitoso do que travar batalhas contra nossos sentimentos.abraço coração

Por mais que desejemos – e tentemos – o mundo lá fora não pode ser controlado, não temos poder para tanto. Mas, ainda assim, temos um grande poder: o poder da escolha. Podemos escolher como passar por tudo isso. Com desespero e pânico ou com práticas de autocuidado e mais serenidade. Quer um exemplo? Todo dia, ao acordar, você pode escolher olhar para a sua casa como um espaço hostil e de confinamento ou como um refúgio, um espaço de segurança e proteção. Você pode escolher gastar uma hora do seu dia mergulhado em notícias que geram ansiedade e medo ou usar esta mesma hora para cuidar de si, fazer alguma atividade física, ouvir uma música, talvez. E essa é, provavelmente, a melhor notícia que eu posso lhe dar dentro das possibilidades de hoje: apesar do mundo estar de pernas para o ar, você ainda está aqui e você pode escolher.

formiga força

Você pode escolher como vai encarar tudo isso. Você pode, inclusive, escolher buscar ajuda se achar que está difícil dar conta de tudo sozinho. Você ainda tem escolhas para fazer. Às vezes esquecemos disso e então nos sentimos vítimas, impotentes demais. Mas se olharmos com mais cuidado, prestando atenção no agora, no que está próximo de nós e faz parte dos nossos dias, tenho certeza que encontraremos muita coisa para fazer, inclusive, melhores escolhas.  E, talvez descubramos que, fazendo as escolhas certas, ainda pode haver muita beleza apesar do caos.

Mesmo sem ter muitas certezas, escolhi começar este texto e deixar que as palavras me conduzissem. Sempre acreditei que elas têm muito poder. Desta vez me ajudaram a organizar as ideias e até me mostraram por onde seguir aqui dentro, com mais calma, enquanto lá fora tudo ainda se transforma.

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